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VOZ DA EXPERIÊNCIA No jornal de domingo não encontrei nenhum anúncio. Arrependo-me de não ter terminado a faculdade. Hoje sou técnico em nutrição, o que para nós, técnicos em nutrição, é quase a mesma coisa que ser nutricionista; já para eles, os nutricionistas, somos meros auxiliares de enfermagem, ajudantes de cozinha. Para os empregadores, os donos de hospital, todos nós somos um monte de merda que cuida da comida dos doentes. Olhei o bolsão de empregos em busca dos informais. Um anúncio procurando enfermeiro para tomar conta de um velho doente poderia ser a solução provisória para minha extensa fase de desemprego e, consequentemente, de falta de dinheiro. Na segunda-feira pela manhã, atravessei o centro da cidade preocupado com a carteira que, apesar de vazia, continha meus documentos. Fui obrigado a desviar das pessoas idiotas que formavam rodas para ver outros idiotas fazendo malabarismos pela rua. Cheguei ao apartamento na Avenida São Luiz. Uma jovem senhora abre a porta. Digo que vim pelo anúncio. Ela me manda entrar. A sala é enorme e, da grande janela, vejo toda a Praça Dom José Gaspar, inclusive a biblioteca Mário de Andrade. Um senhor de poucos cabelos grisalhos está sentado numa cadeira de rodas observando tranquilamente a cidade agitada lá em baixo. É para tomar conta do meu pai, diz a mulher. Tudo bem, e quando posso começar? pergunto. Agora mesmo, se não se importar. É que na verdade nosso antigo enfermeiro pediu demissão na sexta-feira. Coloquei o anúncio às pressas. E graças a Deus você apareceu. Disse ela enquanto pegava sua bolsa, um casaco e um guarda-chuva. Algumas pessoas em São Paulo têm a mania de carregar casacos e guarda-chuvas, mesmo nos dias em que não vai chover ou esfriar. Precisava responder rápido, também queria me livrar daquela mulher tanto quanto ela parecia querer se ver livre da minha presença e do velho. Aceito. Respondi. Ela parecia já ter certeza de minha resposta desde o momento em que entrei. Então está bem. Pago semanalmente, toda sexta-feira. No armário da cozinha estão os remédios, com as receitas indicando a posologia. Tem sopa e frutas na geladeira. Papai não pode comer outra coisa. Fique à vontade para abrir os armários e preparar qualquer coisa que desejar comer. Volto às sete. Até lá. Disse a mulher saindo apressada. A principio não tive problemas com o velho. Sentei no sofá e liguei a televisão. Ele só virou a cadeira depois de duas horas. Quero descer, andar na praça. Foi só o que disse. Como não havia instruções sobre isso, resolvi levá-lo. Tentei puxar conversa. O velho não respondia às minhas perguntas. Apenas pediu que não o tratasse como uma criança. Tudo bem. Pensei comigo, velhos e crianças, pra mim, sempre foram a mesma coisa; dão trabalho e reclamam de tudo. Chegamos à Praça Dom José Gaspar e ele pediu que eu parasse ali, ao lado do bar Varanda. Escutou o samba antigo que vinha do bar. Perguntou se eu gostaria de tomar uma cerveja. Acho que não faria bem ao senhor. Respondi. Perguntei se você queria tomar uma cerveja, não disse que tomaria também. Me leve até a Praça da República. Resolvi obedecer, não pretendia colocar meu novo emprego em risco, não no primeiro dia. Queria ser como a cidade. Iniciou uma conversa, fez uma pausa, olhou para as obras do metrô e voltou-se para meu rosto, deixando claro que continuaria a falar. O tempo passa e a cidade fica cada vez mais nova. Rejuvenesce. Nós não. Hoje tenho oitenta e seis anos. Ela já tem mais de 450 e está cada dia mais moça, quase irreconhecível. Quando tinha vinte anos era aqui que eu costumava namorar. Daqui eu via os operários trabalhando na construção do Copan. Era uma obra prima da engenharia civil. Cheguei a ver o Oscar Niemeyer e o Carlos Alberto Cerqueira Lemos andando e discutindo sobre a obra. Também vi a construção do metrô começar por aqui em 1978. Em 82 foi inaugurada a estação República. E que time tínhamos em 82, lembra-se? Você devia ser garoto. Mas gostava de futebol, não é mesmo? Sem me deixar responder, ele continuou. Aquele Paulo Rossi... Nosso time era muito melhor... Não gosto nem de lembrar. Leve-me até a esquina da Ipiranga com a São João. Ordenou ele. Segui empurrando a cadeira de rodas. Durante o percurso ele não disse uma palavra. Apenas olhava para o movimento das pessoas apressadas. Fez um gesto para pararmos em frente à Rua Vinte e Quatro de Maio. Observou o movimento por alguns segundos e pediu que seguíssemos em frente. Parei na esquina mais famosa de São Paulo, como ele mesmo se referiu ao local, quando deu a ordem. Veja o bar Brahma, voltou a falar novamente com brilho no olhar. “Ah”, suspiros, de ambas as partes. Ali vi Hebe Camargo cantando. Que mulher! Você não acha? Não respondi. Estive na inauguração em 1948. Sentei-me à mesa ao lado do Jânio Quadros... Aquele gostava duma birita. Não posso falar nada, eu também gostava. Mas o bom mesmo era quando o Adoniran ou o Ari Barroso vinham cantar. Lotava. Enchia de garotas. E como eu dançava... Era um verdadeiro pé-de-valsa! Foi dançando que conquistei Catarina. No começo ela resistiu. Não queria dançar. Acho que ficou com vergonha. Também... Eu dançava muito pra ela. Mas não fui arrogante, acompanhei seus passos e sem que ela percebesse, eu a conduzia. Foi assim que ensinei Catarina a dançar. E em passos leves, naquela mesma noite dei-lhe o primeiro beijo. Ela estava tão extasiada com a dança que nem pensou em recusar. Foi durante o show do Cauby. Dali, seguimos de mãos dadas pela São João. Levei-a até em casa, na Santa Cecília, depois voltei andando até o Brás. Feliz da vida. Vamos sair daqui. Disse o velho encerrando o assunto com lágrimas nos olhos. Empurrei a cadeira no caminho de volta para a Avenida São Luiz. Ele pediu que desse a volta, sofri para passar pelo Anhangabaú, depois viaduto do Chá. Mais uma parada, agora em frente ao Teatro Municipal. Ah... O Teatro. Aqui começou a organização da Semana da Arte Moderna. Isso eu não vi. Mas ficou marcado em minha vida. Foi justamente quando eu estava nascendo. Mas aqui vi Cacilda Becker, e pouco tempo depois trouxe Catarina para assistirmos a uma peça do Procópio Ferreira. Foi justamente quando a pedi em casamento. Ah... Que saudade da minha Catarina. Por favor, vamos voltar. Estou cansado. Cansado estava eu de empurrá-lo pela cidade. Dali em diante ele não disse mais nada. Apenas lágrimas. Eu morrendo de fome, com vontade empurrar o velho ladeira abaixo, na descida da São João e vê-lo esborrachar no prédio velho do Correio. Quando entramos no apartamento, olhei para o relógio. Seis da tarde. Escutei o badalar dum sino em pleno centro da cidade, fazia anos que não me lembrava de ouvir um sino, ou ao menos de prestar atenção em um. O velho voltou para a janela e disse na maior calma que já havia passado a hora dos remédios. Corri desesperado ao armário da cozinha, lembrei que também não havíamos comido nada até àquela hora. Procurei pelas receitas, conferi por diversas vezes as doses prescritas. Ele apenas sorria. Dei o remédio ao velho e, quando fui guardá-los na cozinha, aproveitei para tomar dois calmantes que encontrei no armário. Depois de tomar os remédios, ele rumou a cadeira até o sofá em que eu estava sentado: Meu jovem. Você não é enfermeiro! Não é mesmo? Sou sim, senhor. Eu sei que não é. Um sorriso amistoso. Na verdade sou técnico em nutrição. Tudo área de saúde. Posso cuidar do senhor tranquilamente. Não se preocupe. Eu não estou preocupado. Na verdade, estou. Mas não comigo. Estou preocupado com você. Por favor, vá embora e não volte amanhã. Não tente ser o que você não é. O tempo passa. Eu vivi cada dia da minha vida, e hoje só me resta saudades. Saudades da Catarina. Saudades da minha mocidade por essa cidade. Saudades de mim mesmo. Ah... Só Deus sabe como tenho saudades dos meus dezoito, vinte, trinta, quarenta e até dos meus cinquenta anos. Para falar a verdade também tenho saudades dos meus sessenta, dos setenta e até dos oitenta. Tenho saudades de dois anos atrás, tenho saudades da minha vida até o dia em que Catarina se foi. De lá pra cá, a única coisa que quero é partir logo. Mas Deus me fez forte e com ele não adianta teimar. O máximo que consegui até agora foi essa cadeira de rodas. Até a lucidez ele me deixou, para que eu possa sofrer um pouco mais. Os crentes em Deus não acreditam que a vida possa ser feita só de alegria. É preciso provar um pouco de dor. Não sei quanto tempo me resta. Mas vejo que você ainda tem muito que viver, muito tempo pela frente. Minha filha não quer perder o seu tempo cuidando de mim e nem eu mesmo quero que ela faça isso, mas não é justo que pague para outra pessoa, um desconhecido, perder seu tempo comigo. Não perca tempo em troca de dinheiro, não vale a pena. Por favor, vá embora. Viva sua vida. E se chegar a minha idade, espero que tenha saudades dela. A vida é curta, meu rapaz, e veja que quem lhe diz isso é um velho de oitenta e seis anos. Sai caminhando lentamente. Segui pelo viaduto Maria Paula. Quando cheguei à estação Sé, um grupo de malabaristas decadentes tentava fazer algo parecido com um show. Peguei as únicas moedas que tinha e joguei no chapéu que eles haviam deixado no chão. Queria me livrar delas. Não gosto de moedas. Dinheiro pequeno. Muito barulho no bolso, por nada. Depois contei tranquilamente às notas que havia roubado na casa do velho. Resolvi seguir os seus conselhos; seria eu mesmo, para sempre.
Escrito por Marcelo Nocelli às 18h16
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Então é natal Mais uma vez é Natal. O Trânsito terrível. Milhares de pessoas se amontoando nos shoppings. Outras tantas se acotovelando na Rua Vinte Cinco de Março. Suor e lágrimas nos corredores estreitos e lotados da Galeria Page. Piercings se entrelaçando no aperto das escadas da Galeria do Rock. Filas e correrias pelas tendas de lojas infantis montadas em estacionamentos e parques para conseguir a tempo; não só os brinquedos para a criançada, mas também a guirlanda para enfeitar a porta, o pisca-pisca para a sacada. Alguns poucos com boa criatividade e ótima ociosidade, mergulham mais a fundo no espírito natalino e compram a matéria prima para fabricar seus próprios enfeites e presentes. Sem falar na dedicação daqueles que montam árvores de natal. E a configuração do presépio então, horas e horas de dedicação, terapia para alguns, incorporação do verdadeiro espírito natalino para outros. Uma presepada e tanto nos dias de hoje. Mas nada representa mais o natal que a figura do Papai Noel. Antigamente as famílias faziam questão de manter o espírito natalino com toda essa alegoria reluzindo de acordo com suas possibilidades. Hoje o comércio se encarrega disso, incentivando os vizinhos a competirem em ornamentações luxuriantes. Em mansões nos bairros mais nobres, jardins que lembram o Rockefeller Center em Nova York. Em casas de menores posses, nos bairros mais afastados, algumas dão a nostálgica impressão dos cabarés, outras são confundidas com as chamadas “Casas da Luz Vermelha.” É certo também que a figura do Papai Noel já não tem mais tanta importância em nossa sociedade globalizada. Quando eu tinha por volta de seis ou sete anos, eu me lembro que o Papai Noel andava de trenó voador puxado por renas, era dono de uma casa própria muito charmosa no Pólo Norte e, para nossa alegria, ainda mantinha a maior fábrica de brinquedos do mundo, onde milhares de duendes trabalhavam dia e noite para produzir e distribuir os presentes para crianças de todo o mundo. Naqueles tempos, Papai Noel entrava em nossas casas (mesmo sem chaminé ou lareira) sem que notássemos e deixava os presentes para que encontrássemos depois da sua partida. O presente podia ser o que havíamos pedido ou não, quem decidia era ele, o Papai Noel. Nunca conseguíamos ver o Papai Noel. Não que ele fosse uma celebridade pedante como alguns ícones televisivos infantis de hoje, mas porque realmente era muito ocupado. Em apenas uma noite, tinha a missão de entregar os presentes para as crianças do mundo todo. Naquela época o Papai Noel era, sem dúvida, o grande campeão em número de cartas recebidas. Hoje as estatísticas mostram que ele não está nem entre o Top-10 dos que mais recebem cartas. Atualmente o ranking é liderado pelo astro pop Justin Bieber, seguido da banda Restart, em terceiro lugar aparece o astro sertanejo Luan Santana. O restante da lista é composto por cantores de funk carioca, duplas sertanejas, cantoras do axé-music, apresentadores de televisão, jogadores de futebol e personalidades em evidencia da Comédia em Stand-up. Ícones com Xuxa, Angélica e Eliana também já não figuram no ranking há anos, desde os tempos do Coelhinho da Páscoa e dos Trapalhões em sua formação original, mas insistem em manipulação dos dados da pesquisa para se manterem na mídia. Mas, o fato do Papai Noel não figurar mais na lista, não quer dizer que as crianças deixaram de acreditar nele. Não. As crianças de hoje continuam acreditando nos diversos Papais Noéis espalhados pelas grandes lojas e shoppings da cidade. A diferença é que Papai Noel, hoje, é uma profissão como outra qualquer. Tudo muito lógico. O Papai Noel ouve o pedido da criança que ficou na fila para tirar uma foto em seu colo por imposição dos pais, o pedido é processado por um sistema que a criança não sabe e nem quer saber exatamente como funciona. O presente chegará ou não conforme o pedido, de acordo com uma equação de regra de três simples: merecimento da criança x situação financeira dos pais x disponibilidade no mercado. O perfil do Papai Noel atual também já foi traçado pelo último Censo do IBGE; ele mora na periferia, anda de ônibus, paga aluguel e ao invés de neve, nesta época do ano, sua casa, normalmente fica ilhada pela enchente que assola a cidade. A maioria não tem carteira assinada, trabalha como temporário sem direito a vale transporte e alimentação em escala de 12 x 36 revezada numa equipa de três colegas de profissão e durante o restante do ano, vive de biscates para sustentar a família.
Escrito por Marcelo Nocelli às 19h53
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Durante a madrugada o doutor Socrates subiu aos céus E a manhã de domingo nasceu Corinthians! 
Escrito por Marcelo Nocelli às 10h58
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Texto de auto-despedida Devia ter estudado medicina. Ou engenharia. Mas não, resolvi me enveredar pelo mundo das letras sonhando ser um escritor. Não deu em nada. Demorei muito escolhendo entre um curso e outro que não fiz... Esse ócio todo me levou a tomar contato com extraordinários livros, discos, poesias, filosofias, teses políticas e outras leituras que, dizem, só servem para perturbar a vida dos “trabalhadores de bem” e a paz mundial. Ainda bem que não tive filhos, seria mais gente para decepcionar. Enquanto escrevo estas linhas, bebo a quarta ou quinta dose de uísque. Já perdi a conta. A garrafa está quase no fim. Minhas doses sempre foram bem servidas, transportando-me para um estado onde a vida se torna possível e a angústia parece desaparecer por algum tempo. Meu pai sempre dizia que artistas são, em sua maioria, bêbados, drogados ou homossexuais. Ou tudo isso ao mesmo tempo. Seres tão desprezíveis ao ponto de sua própria criação justapor-se à sua existência. Quem me dera! De qualquer forma, ele viveu apreensivo do que daria, afinal, minha vida, essa possibilidade de me tornar um grande escritor, um artista de verdade, atividade tão objurgada pelo velho, me satisfazia uma ponta de vaidade que nunca consegui reprimir. Quando ele se foi, senti o gosto amargo da derrota por não ter tido em tempo a chance de desapontá-lo. Mas tenho comigo que ele morreu vencedor dessa batalha, sem saber. Talvez eu tenha optado pelo gênero errado ao definir minha escrita. A prosa nunca foi meu forte. Acho que sou apenas um poeta lírico de passagem pela vida. Nunca escrevi poesia. Sempre busquei vivenciá-las. Pena a vida não ser considerada obra literária; me pouparia esforços na busca por construções sintáticas que não deram em grandes feitos. Julgo ter chegado a um estágio em que a gente já sabe aquilo que é. Fui sempre muito intenso. Sem qualquer registro, fora a memória, não encontro a palavra escrita, nem falada e não tenho como comprovar tudo isso para eternizar os versos vividos. A literatura não se conforma com o vazio que sempre preencheu minha poesia, estrofes que não são suscetíveis de leitura, por isso; encerro aqui este último texto que, como todos os outros, não terá um leitor sequer, para criticá-lo.
Escrito por Marcelo Nocelli às 18h02
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Bar do Frango
Fazia tempo que eu queria conhecer o Bar do Frango. Eu já sabia que por lá se apresentam grandes nomes da música e da poesia paulistana. E ontem finalmente chegou o dia. À convite do meu amigo Cicinho Bonneges, seguimos para o Parque São Lucas. A princípio, quando entrei, achei o lugar um tanto quanto... pequeno demais. Eu só não sabia que o pequeno espaço é um gigantesco templo da cultura. E depois das apresentações a música rola solta com violões pelas mesas, cantores em todos os cantos num clima intimista de amizade e descontração... Nesse domingo, por exemplo, lá estava o cantor Marcelo Barum (Grupo Tarumã), o escritor João Roberto Laque, com quem troquei livros e dedicatórias, meu amigo Tião de Sá, entre tanta gente boa que conheci por lá. Sei que nomes como Lula Barbosa, Miriam Miráh, Elomar, Amauri Falabela, João Bá, Julian Tirado, Nanah Correia, Graziella Hessel entre tantos outros são presenças constantes por lá. Vale a pena conferir este ambiente agradável demais: BAR DO FRANGO: Av. São Lucas, n. 479 (quase ao lado da Igreja de São Lucas.) A Avenida São Lucas começa na Luis Inácio de Anhaia Melo, altura do 5.000. A estrada do Oratório também é uma boa referência pois cruza com a São Lucas.
Escrito por Marcelo Nocelli às 20h55
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AMANHÃ (23/11/2011)
TEM JOÃO SILVÉRIO TREVISAN NA ZN (EM SANTANA) NA BIBLIOTECA NUTO SAN´ANNA O ESCRITOR NA BIBLIOTECA Criado em 1981, o projeto O Escritor na Biblioteca coloca os escritores em contato pessoal com os leitores. Através de um painel de debates, o escritor apresenta sua obra e relata suas experiências, promovendo a aproximação com os leitores e estimulando a criação literária e o gosto pela leitura. João Silvério Trevisan Jornalista, escritor, roteirista, cineasta e tradutor, João Silvério Trevisan já ganhou diversos prêmios, entre eles o Jabuti e o da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). É um dos fundadores do grupo de defesa dos direitos homossexuais "Somos" e criador do jornal temático "Lampião da Esquina". Entre suas obras estão "Troços e Destroços", "Ana em Veneza" e "Testamento de Jônatas deixado a Davi".
Dia 23 de novembro às 10h
Endereço: Praça Tenório Aguiar, 32 Santana - 02044-080 São Paulo, SP Tel.:11 2973-0072 Horário: 2ª a 6ª feira das 8h às 17h e sábado das 9h às 16h bmnutosantanna@yahoo.com.br
Escrito por Marcelo Nocelli às 01h46
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UM NOVO SARAU NA ZONA NORTE QUINTA-FEIRA 17/11 - À PARTIR DAS 20HOO, TEM O SARAU DO MEU AMIGO CICINHO BONNEGES... AQUI NA Av NOVA (AV. LUIZ DUMMOND VILLARES, 2.104, AQUI PERTINHO - NA ZN - AO LADO DA ESTAÇÃO PARADA INGLESA DO METRÔ... 
Escrito por Marcelo Nocelli às 13h46
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Viva a poesia Desde pequeno, mesmo sem qualquer incentivo da família, morando na periferia de São Paulo, Robson sempre gostou de ler. Lia tudo que aparecia na sua frente; gibis eram os preferidos, mas na falta destes, se contentava com jornais velhos, pedaços de revistas, anúncios, manuais dos eletrodomésticos que a família comprava com dificuldade e até as bulas dos remédios que tomava. Lia tudo, mesmo sem compreender o contexto. Na adolescência, sem livros em casa, o garoto passou a frequentar a biblioteca do bairro, dedicando tardes inteiras a procura de livros nas estantes como quem busca desesperadamente uma saída de um lugar totalmente desconhecido. Foi esse hábito compulsivo que o levou a desistir dos estudos quando terminou o ensino médio. Não queria estudar. Apenas ler romances. A vida era, sempre, uma grande ficção. O que ocasionou em um futuro sem profissão. Quando passou a maioridade, sofreu com a perda dos pais. Buscou algum alento, como sempre, na leitura. E só no dia em que resolveu comprar um novo romance é que percebeu sua nova realidade. Daquele momento em diante teria que se manter. Com a pequena herança que recebeu comprou um pequeno bar falido no bairro. Com o pouco dinheiro que restou reformou o estabelecimento e convidou alguns músicos para tocar durante as noites de sexta e sábado. Decorou as paredes do bar com telas, esculturas e artesanatos de artistas desconhecidos que moravam na região. Logo o lugar passou a ser frequentado por estudantes, professores, músicos e poetas. Alguém sugeriu que ali deveria acontecer, mensalmente, um sarau, onde essas pessoas poderiam, enfim, mostrar seus trabalhos. Robson decidiu que o encontro das artes aconteceria todas as segundas-feiras e em pouco tempo a casa ficou conhecida por artistas independentes de toda a grande São Paulo. O bar acolhia mais de cem pessoas entre as espremidas dentro do pequeno espaço e as que ocupavam as calçadas da esquina periférica que se tornou o centro das atenções. Carros já não passavam mais por ali nas noites de segunda-feira. Foi ai que Robson tomou contato com a poesia, literatura que até então ele praticamente desconhecia. Rapidamente começou a ler tudo sobre o assunto e entre tantos grandes nomes, se encantou com Manoel de Barros. Leu toda a obra (publicada) do autor. Não contente, procurou saber mais sobre a biografia do poeta do Pantanal. Ficou surpreso em não encontrar um vasto material. Não descobriu quase nada sobre a vida do maior vendedor de livros de poesia do país. Sabia apenas que o homem simples de versos e frases da mais profunda naturalidade vivia isolado no pantanal mato-grossense. Robson tentou contato por cartas, e-mails para a editora do autor e, nada, nenhuma resposta. Não contente e desesperado em saber um pouco mais sobre aquela linguagem que o encantara, Robson decidiu que iria (a pé se fosse o caso) até o pantanal para conhecer pessoalmente o autor que, sem qualquer motivo aparente, se tornou um ídolo da noite para o dia. Precisava perguntar para ele o que era realmente a poesia, como poderia ler e entender tudo aquilo que, de repente passou a angustiá-lo tanto, ao mesmo tempo em que lhe trazia alívio, tristeza, alegria e beleza. O que seria aquela inquietação toda que a leitura dos poemas lhe causava? Após um encontro das artes, numa segunda-feira fria e chuvosa, Robson começou sua caminhada. Na Rodovia dos Bandeirantes pegou a primeira carona em um caminhão de cana que o deixou numa pequena cidade do interior do estado de São Paulo. Dali seguiu caminhando um dia e uma noite. Outras caronas vieram em carros de famílias, vendedores (caixeiros viajantes modernos) outros caminhões. Dormia e comia em pequenos postos de gasolina e pensões simples de beira de estrada. Conheceu pessoas, fez amigos, descobriu mundos e vidas inteiras que nunca imaginara existir. Experimentou comidas, bebidas, sensações, cheiros e saudades que até então desconhecia ou que já não se lembrava mais. Foram mais de quinze dias até chegar a Campo Grande. Lá ficou por dois dias até conseguir informações sobre o paradeiro do poeta. Quando finalmente o encontrou, numa casa de campo simples nos arredores da cidade, foi recebido pelo poeta, a princípio, contrariado com sua presença e que logo o perguntou: - O que você veio fazer aqui? Robson, quase sem palavras, disse que precisava conhecê-lo saber o que é a poesia, como identificá-la. Depois contou toda sua trajetória de dificuldades para chegar até ali. O velho poeta respondeu: - A poesia é a virtude do inútil. Também disse que há várias maneiras de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira. Depois o poeta perguntou detalhes sobre a viagem de Robson e ouviu atentamente as respostas e as histórias inusitadas contadas com empolgação pelo jovem viajante, ao que o poeta lhe respondeu: - Isso é a poesia. Robson passou um mês inteiro hospedado na casa do poeta. Durante todos esses dias, saiam para pescar e conversar. E foi numa dessas tardes que o poeta lhe disse sorrindo: - A poesia está dentro da gente. Eu mesmo, vivo tanta poesia que, de dentro de mim não saiu nem para pescar. Texto publicado na Revista ZN de novembro (2011) em homenagem aos poetas: Manoel de Barros e Robson Pardial (Binho)
Escrito por Marcelo Nocelli às 19h03
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Velhos, amigos. Após a morte do pai, André achou que era hora de voltar ao Brasil e assumir o renomado escritório de advocacia. Ao concluir com êxito o curso de direito da USP, foi morar nos Estados Unidos, fez doutorado em Harvard, passou por estágios e fez carreira como advogado em Boston, onde morou nos últimos doze anos. Agora, aos 39, estava de volta a São Paulo. O conhecidíssimo escritório Ferreira & Ferreira Associados tem como colaboradores excelentes advogados, mas nenhum deles tão primorosos quanto o velho Dr. Alcides Ferreira, que, após sessenta e cinco anos de carreira, descansará em paz. André teria pela frente a difícil missão de substituir ao pai, tão respeitado e querido por todos. Mesmo assim, estava confiante, trazia na bagagem sua brilhante carreira internacional. O pai nunca havia saído do país, morria de medo de avião, dizia que adorava seu país, a mesma desculpa que usava quando lhe perguntavam por que nunca aprendera outro idioma. André falava fluentemente quatro línguas. Depois de ocupar a antiga sala que pertenceu ao pai, André trocou toda a mobília. Pendurou na parede seus diplomas e requisitou uma reunião com todos os funcionários. Quando a reunião terminou, André voltou para sua sala. Abriu a porta e se espantou com seu Osmar, que colocava um vaso de plantas num canto da parede. - Meu senhor, fui eu quem mandou colocar esse vaso na sacada! - Desculpe doutor, mas se ela ficar lá, vai morrer. Lá bate sol o dia todo, com esse calor de São Paulo. Melhor deixá-la tomar o sol da manhã, e regar duas vezes por dia. Por favor, não esqueça. Seu Osmar saiu da sala. André saiu em seguida, batendo a porta. - Por que temos um faxineiro ao invés de uma faxineira? Perguntou o novo presidente à sua secretária. - Não sei doutor. - Quem faz o café? - Seu Osmar, melhor do que ninguém. No segundo dia, André chegou ao escritório por volta das dez horas. Passou pelos corredores, entrou na sala e lá estava o homem novamente. - O que o senhor está fazendo aqui? - Passei para verificar se o senhor havia regado a planta. Mas como sua secretária informou que o senhor nem havia chegado, resolvi eu mesmo regá-la. Agora vou colocá-la pra dentro. - Mas eu já não falei que não quero essa porcaria aqui dentro! - Desculpe, doutor, vou deixá-la onde o senhor mandou. O velho já ia saindo da sala, quando André se aproximou e colocou a mão sobre seu ombro: - Me desculpe, seu Osmar. Tudo bem, o senhor tem razão, pode ficar à vontade todos os dias para regar a planta e trocá-la de lugar conforme achar melhor - André continuou tentando se redimir - Mas me diga, seu Osmar, como o senhor faz um café tão gostoso desse jeito? Nunca tomei melhor. O velho pareceu se alegrar: - Na verdade, doutor, trago o café que colho na minha pequena propriedade, uma terrinha que tenho aqui nas proximidades da serra da Cantareira, mas na parte de baixo, fica bem antes da casa do vosso pai. É no caminho. Lá tenho uma horta, tenho café, laranja, milho. Tenho boas mãos para plantação. Nasci e cresci na roça. Eu mesmo môo e torro o café. Mas o segredo é passar no coador de pano... Doutor, o senhor tirou todas as coisas do doutor Alcides, o que fez com elas? - Levei para casa dele. Respondeu André, olhando para o relógio. - Ah... sei... Por acaso o senhor não viu por ai um velho caderno de Cordel? - Desculpe, seu Osmar, não me lembro, mas vou pedir a alguém que procure na casa do meu pai, caso encontre, entrego ao senhor. - Muito obrigado. O senhor trocou o quadro da paisagem que estava na parede por esse rabisco aí, né? - Eu prefiro arte moderna, além do mais, estava velho, meio sujo, era muito bonito, mas não combina com a nova decoração. Não gosto de paisagens. Esse tipo de pintura com uma casinha, riacho e barquinho... Só uma questão de gosto. Mas se o senhor quiser o quadro, eu... - Não, de jeito nenhum, o quadro é do doutor Alcides. - Tudo bem! Olhe, seu Osmar – continuou André pacientemente – Esta sala agora é minha, infelizmente meu pai se foi, e tudo o que era dele, agora é meu, mas o senhor pode ficar tranquilo, não vou me desfazer de nada, vou guardar tudo, sei que são verdadeiras relíquias. Depois que conseguir separar tudo levo o senhor até lá para que pegue o que desejar guardar como recordação. No dia seguinte, ao entrar na sala, André novamente depara-se com seu Osmar. A planta já estava no canto da parede. Ao lado, duas varas de pesca, um binóculo, um álbum de fotografias com imagens dos amigos Osmar e Alcides pescando no pantanal e um livro de poesias de Patativa do Assaré. - O que é isso seu Osmar? Perguntou André sorrindo. - São as coisas do doutor Alcides que estavam comigo emprestadas. Vim devolver. Agora são suas. Só peço ao senhor que me devolva o livro de Cordel, apesar de estar com o doutor Alcides há mais de dez anos, é meu. - Tudo bem, vou procurar o tal livro. Ah... Aquele quadro já encontrei. O senhor vai querer, seu Osmar? - Não! De jeito nenhum. Quando pintei aquele quadro, dei de presente ao doutor Alcides, é dele, assim como esses outros objetos.
Escrito por Marcelo Nocelli às 19h44
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Pelo segundo ano consecutivo, o Festival do Livro e da Literatura de São Miguel, realizado pela Fundação Tide, tem como objetivo criar um movimento de estímulo à leitura, troca de saberes e acesso ao livro no bairro. A proposta do Festival é novamente ocupar as ruas, praças, paradas de ônibus, bibliotecas e escolas, para que os espaços públicos voltem a ser lugares de livre expressão. As atividades serão realizadas nos dias 25, 26 e 27 de outubro, das 9h às 21h.
Uma das grandes atrações da programação é uma homenagem a especial a Ferreira Gullar, autor do celebrado “Poema Sujo”. O poeta maranhense fará uma palestra no último dia do evento. Escritores como Eucanaã Ferraz, Ferréz, Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Sacolinha, Marcelo Nocelli, entre outros, também farão parte desta festa literária na zona leste da cidade de São Paulo.
Além da conversa com autores da literatura brasileira, o Festival terá:
· Contação de Histórias
· Lançamento de livros
· Oficinas de Criação Literária
· Intervenções Teatrais
· Recitais Poéticos e Cortejos Literários
· Ônibus Biblioteca
· Sarau Literário
· Doação, venda e Troca de Livros
· Exposições
· Entre outras atrações
PARA ACESSAR A PROGRAMAÇÃO COMPLETA: VISITE http://www.fundacaotidesetubal.org.br/programacao/festivaldolivro2011
Escrito por Marcelo Nocelli às 14h36
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JAÇANÃ TEM MUSEU DO BAIRRO... 
Pois é... Eu, fã de Adoniran Barbosa, que passei boa parte da minha infância e adolescência andando de bicicleta ou correndo pelas ruas do bairro não sabia da existência de um museu que preserva documentos, objetos, fotos e conta um pouco da trajetória de pessoas importantes que passaram pelo bairro. E tudo isso é mantido por um antigo morador do bairro, Sylvio Bittencout, um senhor de 80 anos, que fundou e mantém o museu com recursos próprios e pequenas doações de outros moradores e comerciantes da região. Sua história de amor com o passado começou em 1983, quando passou a colecionar na garagem da própria casa papéis e pequenos objetos importantes do patrimônio histórico do bairro. Mesmo com a relutância da mulher, alugou em 1985 (mesmo sem ter como pagar) uma casa para abrigar aquele pequeno tesouro. Apesar do esforço, em 1990 teve que levar de volta, todo o acervo, à sua garagem. Dias depois avistou um terreno abandonado e teve a idéia de fazer um abaixo assinado para instalar no local seu museu. A iniciativa deu certo e ali, até hoje, vive o Museu do Jaçanã. Identificando-se como historiador autodidata, ele se orgulha de valorizar suas raízes. O antigo Sítio Guapira, que mais tarde recebeu o nome de Jaçanã, permanece vivo não só na composição de Adoniran Barbosa (Trem das onze) mas também em peças de um acervo de grande valor sentimental aos bairristas, como por exemplo o chapéu usado por Adoniran, os instrumentos de trabalho do primeiro barbeiro do bairro, uma maquete da estação de trem, com direito a uma pequena réplica do trem que teve entre seus passageiros o compositor famoso que, constantemente, visitava a Cinemateca Maristela, de propriedade do amigo Mazzaropi (Hoje atual fábrica da Aliança Fechaduras) para gravar seus filmes. O Museu do Jaçanã é um espaço histórico, que anseia por visitações e precisa de doações para que não feche suas portas, superando a cada dia o risco de calar a voz de um passado na construção do nosso futuro. Museu do Jaçanã Rua São Luiz Gonzaga, 156 (Antigo n. 30) Jaçanã – ZN – São Paulo – SP – Brasil (Terças as sexta-feiras das 14h às 17h. Sábados das 9 às 17h) http://www.museujacana.com.br FONTE: Jornal Authentic News (Edição de outubro 2011)
Escrito por Marcelo Nocelli às 15h55
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Sujeitos predicados O sujeito acorda cedo. Às seis. E lá vai o sujeito para mais um dia útil em sua vida. Toma seu banho e escova seus dentes embaixo do chuveiro. A escova – comprada a preço de ouro, por indicação de um outro sujeito que é dentista – é arremessada por cima do box e, acerta a pia. Marca seu primeiro ponto do dia. A primeira euforia. O sujeito toma também seu café reforçado. Reforçado e apressado. Depois de beijar rapidamente a esposa e as crianças, o sujeito sai correndo. O nó da gravata é finalizado enquanto abre o portão para tirar o carro popular da garagem. Carro esse que o sujeito vai estar pagando pelos próximos quarenta e seis meses. O sujeito é expert em nó de gravata, se orgulha disso. Há mais de quinze anos usa gravatas durante os cinco dias da semana. Aos finais de semana ele não usa; troca o terno e a gravata por bermuda, chinelos Rider um ou dois números maior que seu pé, o que lhe dá uma sensação de conforto e camiseta do time de coração ou uma daquelas com inscrições do tipo: “Estive em tal lugar e, lembrei de você”. Que o sujeito ganhou de um parente que voltou de viagem recente. Nos dias mais frios o sujeito veste conjunto de moletom com calça e blusa da mesma cor, mas nem sempre abandona os chinelos, mesmo quando está com meias pretas. (Conforto). Enquanto fica por quase duas horas no transito, ouvindo notícias sobre o transito, o sujeito aproveita para ligar do seu moderno celular à rádio que só fala sobre trânsito. Ele informa como está o trânsito na região por onde passa todos os dias. Terrível, como todos os dias. Espera alguns minutos e ouve o locutor passar suas informações, no final escuta agradecimentos por sua colaboração e, seu nome e sobrenome. Sente orgulho. Seu segundo ponto do dia. Depois da pequena euforia, continua ouvindo dicas de outros sujeitos que também ligaram para a rádio. Quando finalmente chega ao trabalho, o sujeito percebe que está dez minutos atrasado. O chefe lhe dá uma pequena bronca educada na frente dos colegas. O sujeito percebe então que acaba de perder dois pontos. O trabalho é igual ao dia anterior e com toda certeza será igual ao do dia posterior. Ótimo, sem dificuldades. O sujeito não gosta de dificuldades, ele é um sujeito simples. Na hora do almoço o sujeito vai a um restaurante que vende comida por quilo e oferece como brinde uma sobremesa, normalmente uma gelatina. Depois de enfrentar a fila com prato e talheres na mão, o sujeito aguarda com sua bandeja, por um lugar. Enquanto come, ele assiste aos programas sobre futebol, gostaria de ver o fim da matéria especial feita com o seu time, mas não pode, já terminou sua refeição, e as pessoas na fila de espera olham feio, intimando-o que se levante logo e possa ceder seu lugar. O sujeito então volta para a empresa, ainda lhe restam quinze minutos do horário de almoço. Conversa então com outros sujeitos sobre as mesmas coisas que conversaram ontem e que, provavelmente conversarão amanhã. Volta ao trabalho. No fim do expediente o sujeito vai com os amigos para o bar da esquina. Toma três ou quatro cervejas e sai apressado. Precisa estar em casa antes das oito. A esposa do sujeito não permite que ele chegue depois desse horário, com exceção das quartas-feiras; dia em que o sujeito joga futebol com os amigos depois do expediente, então pode chegar as dez, mas já deve ter feito sua refeição na rua, imposição da esposa. Nos outros dias, o sujeito chega, toma o segundo banho do dia, e quando sai, já de pijamas, o jantar está na mesa. Depois o sujeito deita no sofá. Briga com as crianças que fazem barulho e atrapalham sua concentração no jornal televisivo. Começa então a novela, que o sujeito e sua esposa assistem juntos sem trocarem qualquer palavra. O mesmo acontece com o filme que começa logo em seguida. Quando acaba, o sujeito espera que a esposa tome seu banho, enquanto isso, ele confere o quarto das crianças, que já estão dormindo. O sujeito então lê alguns capítulos do mais novo sucesso entre os livros de auto-ajuda, que foi indicado por um outro sujeito, amigo de trabalho. O sujeito se motiva com as palavras do livro, fecha-o com uma batida forte e esperançosa, acreditando que a partir de amanhã iniciará uma nova vida. Ele vai até o quarto, pondera por alguns minutos se deve ou não acordar a esposa para uma noite de amor. Desiste, estão cansados. Olha para o livro, empolga-se novamente, lê até pegar no sono e, sonha. Sonha em ser um sujeito composto.
Escrito por Marcelo Nocelli às 19h01
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Horário de verão. Durante esse período do horário de verão eu sempre me atrapalho. Principalmente pela manhã, se já era um sacrifício levantar no horário normal, imagine uma hora antes; eu que faço questão de cada minuto durante o sono matinal – pra mim, o mais gostoso de todos, aquele que chega justamente depois do despertar do relógio – O dia ainda escuro, como se fosse noite, a cama quente. Bendita e ao mesmo tempo maldita seja a tecla “sleep” do rádio-relógio, aqui no Brasil, carinhosamente apelidada de “soneca” por alguns fabricantes. Aquele botão que quando apertado fica despertando de cinco em cinco minutos. Bendita porque me faz levantar, mesmo que atrasado, lá pelo quinto ou sexto toque, e maldita porque realmente aporrinha qualquer ser vivo... Cheguei a ficar com tanta raiva do horário de verão (no perído da manhã, é bom deixar isso bem claro!) que fui pesquisar maiores detalhes, e descubri que: o país economiza apenas 4% das reservas de energia no ano. É um absurdo tanto sacrifício para uma economia tão pequena, sim, porque pelas minhas contas eu perco 12% da minha noite de sono. Também descobri que esse tal horário de verão foi inventado pelos americanos em 1884 que deram o nome de “daylight saving time”. E como nós sul-americanos temos a mania de seguir as regras de nossos big-brothers norte-americanos, copiamos mais essa brilhante idéia. Em 1932 o então presidente Getúlio Vagas instituiu o horário de verão pela primeira vez no país, que vigorou de forma esporádica até 1967, quando foi extinto. Mas, em 1986 alguém teve a grande idéia de retomar a medida de economia de 4% das reservas de energia do nosso país, era parte de um elenco de ações tomadas pelo governo devido ao racionamento ocorrido na época por falta d’água nos reservatórios das hidrelétricas. Desde então o horário de verão passou a ocorrer todos os anos. Eu fico pensando: “Será que eles não poderiam economizar água e energia de outras maneiras? Como, por exemplo, no controle mais rígido dos meios de poluição, fiscalizações mais eficazes das empresas e construções que foram aprovadas há anos, despejando toneladas de lixo e poluentes em nossos rios. Não... Isso seria mais difícil para nossos governantes...” Mas existe sim uma pequena parte do dia onde o horário de verão torna-se agradável; é justamente o horário em que deixo o trabalho, ao sair, o dia ainda claro, o sol ardendo até as seis, sete horas da noite, nos convidando para aquela cerveja gelada com os amigos. Mas essa alegria momentânea passa rápido, porque escurece tarde, e com isso a noite também acaba passando rápido demais, quando percebemos... Já passou da meia-noite, e então penso: “Bem... Meia-noite no horário de verão... Ainda seria onze horas no horário normal, então, estou dentro do meu horário habitual de dormir”. E quando chego em casa, banho, televisão... Quando vou para cama, olho para o relógio, acerto-o para que desperte no horário e, percebo que vou dormir pouco, quatro ou cinco horas no máximo. E lá se vão mais 12% de uma noite de sono a menos em minha vida. Considerando que dormimos, ou deveríamos dormir em média oito horas por noite (no mínimo), estaríamos dormindo 33,33% de toda nossa vida, posso concluir que o horário de verão (que vigora por quatro meses) me atrapalha em 25% de sono durante a vida. E o pior de tudo, é que quando estou começando a me acostumar, ele simplesmente acaba, e lá vem outro sacrifício, que é o de me acostumar com o horário normal novamente, e lá se vão mais algumas horas de sono perdidas....
Escrito por Marcelo Nocelli às 10h03
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Ao mestre com carinho No dia 15 de outubro de 1827 (dia consagrado à educadora Santa Teresa de Ávila), Pedro I, Imperador do Brasil, baixou um Decreto Imperial que criou o Ensino Elementar no Brasil, onde ordenava que todas as cidades, vilas e lugarejos tivessem suas escolas de primeiras letras com as matérias básicas que todos os alunos deveriam aprender e até uma cláusula que explicava como os professores deveriam ser contratados. A ideia, inovadora e revolucionária, teria sido ótima - caso tivesse sido cumprida, mas essa foi, provavelmente, a primeira vez que a educação foi deixada de lado neste país. Somente em 1947, 120 anos após o referido decreto, que ocorreu a primeira comemoração de um dia efetivamente dedicado ao professor. Quatro professores do extinto Ginásio Caetano de Campos, conhecido como “Caetaninho” no bairro da Bela Vista em São Paulo, tiveram a ideia de organizar um dia de parada para comemoração dos profissionais ligados a educação e também para análise dos rumos para o restante do ano. Também foi acordado que professores de todos os estados enviariam seus estudos sobre o andamento da educação em seus estabelecimentos para que pudessem contribuir, na prática, para a constante melhora do ensino no país. Por falta de verbas e tempo, essa parte do projeto (talvez a mais interessante) não foi levada adiante. Novamente a educação foi deixada de lado. O professor Salomão Becker, entusiasmado com o projeto, sugeriu então que o encontro se desse no dia 15 de outubro. O discurso do professor Becker, além de ratificar a idéia de se manter na data um encontro anual, ficou famoso pela frase "Professor é profissão. Educador é missão". Com a participação dos professores Alfredo Gomes, Antônio Pereira e Claudino Busko, a idéia estava lançada. A celebração, que se mostrou um sucesso, espalhou-se pela cidade e pelo país nos anos seguintes, até ser oficializada nacionalmente como feriado escolar em 1963. Agora em 2011, novamente comemoramos o dia do professor. Do projeto inicial restou apenas o feriado escolar. O mais interessante para a maioria dos alunos e, infelizmente, também por parte de alguns docentes. Durante anos, aquela que é vista por muitos como uma das mais importantes atividades no mundo (sem qualquer demérito a todas as outras profissões) foi se deteriorando. Não se faz necessário falar dos baixos salários, assim como não é necessário falar da má formação dos profissionais, tampouco dos casos de violência contra os professores ocorridos nas imediações das escolas e até dentro das salas de aula. Também não é preciso falar das péssimas condições de trabalho oferecidas pelo estado, prefeituras e até por algumas instituições particulares que em contrapartida cobram mensalidades absurdas.Já escrevi isso antes: Vivemos em um país cuja preocupação tem sido somente o desenvolvimento econômico e político e não o crescimento social e pessoal de seu povo. Talvez esse seja só um dos motivos pelo qual o educador (aos olhos do contratante) mereça um salário dez vezes menor que o do administrador de finanças, por exemplo. Mas isso também não seria necessário comentar. Fato é que nem o próprio aluno tem o mesmo respeito de outrora pelos mestres. A minha geração talvez tenha sido uma das últimas a ver o professor com um olhar diferenciado, quase superior (no melhor dos sentidos). Quando encontro um antigo professor na rua nem me lembro de chamá-lo pelo nome. Chamarei sempre: Professor! Alguns com especial afinidade ou admiração nunca serão apagados da memória. E por falar nisso: Tia Regina (pré-escola), Dona Marlene (3º série), Valdim (5º série), Márcia Feldman (1º ano eletrônica) e mais recente nas Letras; Diógenes, Mestre Plínio e Jucimara Tarricone - Parabéns pelo seu dia. Eu me espelho em vocês, porque como disse Paulo Freire: “A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. Mudar é difícil mas é possível”. (Texto publicado na Revista ZN de outubro em homenagem ao dia dos professores)
Escrito por Marcelo Nocelli às 21h35
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Festival do Livro e da Literatura -
Edição 2011 Pelo segundo ano consecutivo, o Festival do Livro e da Literatura de São Miguel, realizado pela Fundação Tide, tem como objetivo criar um movimento de estímulo à leitura, troca de saberes e acesso ao livro no bairro. A proposta do Festival é novamente ocupar as ruas, praças, paradas de ônibus, bibliotecas e escolas, para que os espaços públicos voltem a ser lugares de livre expressão. As atividades serão realizadas nos dias 25, 26 e 27 de outubro, das 9h às 21h.
Uma das grandes atrações da programação é uma homenagem a especial a Ferreira Gullar, autor do celebrado “Poema Sujo”. O poeta maranhense fará uma palestra no último dia do evento. Escritores como Eucanaã Ferraz, Ferréz, Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Sacolinha, entre outros, também farão parte desta festa literária na zona leste da cidade de São Paulo. Eu e Jucimara Tarricone também estaremos lá para falar dos caminhos da Literatura Brasileira Contemporânea. Além da conversa com autores da literatura brasileira, o Festival terá:
· Contação de Histórias
· Lançamento de livros
· Oficinas de Criação Literária
· Intervenções Teatrais
· Recitais Poéticos e Cortejos Literários
· Ônibus Biblioteca
· Sarau Literário
· Doação, venda e Troca de Livros
· Exposições
· Entre outras atrações
Clique nos links abaixo, confira a programação completa e escreva essa história com a gente! 25 | outubro (terça-feira) 26 | outubro (quarta-feira) 27 | outubro (quinta-feira
Escrito por Marcelo Nocelli às 09h53
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